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Gago Apaixonado

Hoje, no Pop Arte, segue um texto de Paulo Costa Lima, compositor e pesquisador da Escola de Música da UFBA. No seu blog – www.paulocostalima.wordpress.com, o músico publica crônicas semanais e, também, disponibiliza músicas belíssimas compostas durante sua carreira.

Para quem curte música ou uma boa crônica, vale a pena conferir!

Paulo Costa Lima

Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria?

É claro que no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no imaginário. A falta de coesão social resultou num grande vazio de força simbólica unificadora — fomos Colônia por vários séculos, e reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos ‘bons costumes’. No contrapelo dos limites.

É o que anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política. Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na figura do malandro.

Ora, Noel está muito ligado ao mundo da boemia e da malandragem carioca do início do século XX. E exerceu sim, diversas vezes, o papel de reverberação de contra-discursos. Um dos mais densos e candentes é o que segue:

Quanto a você / Da aristocracia / Que tem dinheiro / Mas não compra alegria

Há de viver eternamente / Sendo escravo dessa gente / Que cultiva hipocrisia

Gosto de entender a canção ‘Gago Apaixonado’, uma de suas criações mais interessantes, como parte desse cenário. Imperdível conferir a gravação original, feita em 1931. Quase 80 anos depois e ninguém conseguiu chegar perto do frescor de sua originalidade — é samba, chorinho, modinha lírica, e não dispensa trejeitos de New Orleans, tudo no melhor estilo. Mas, sobretudo, lá está a voz e a presença irradiante de Noel.

A inteligência composicional da canção coloca em primeiro plano a situação hilária de um gago, extravasando sua decepção amorosa, e olha que os gagos geralmente cantam sem tropeçar. Mas há outras leituras relevantes.

Trata-se de um gago paradigmático. Quem é que alguma vez não se engasgou com a paixão? A paixão faz engasgar, gaguejar, praguejar – e eis que o nosso personagem acaba afirmando que sua ‘amada’ vai ficar corcunda. Nesse sentido, rir do gago é rir da própria condição humana.

Um detalhe importante: a amada não recebe nome. A canção mudaria de perfil se fosse dirigida a uma mulher específica (Rosa, Marina, Rita…) como é tão comum no repertório romântico. Noel deixa o objeto da paixão no seu nível mínimo de personalização: mu–mu–mulher. Prevalece o lado passional, do qual a gagueira faz parte.

A série de rimas que acompanha esse processo é bastante sugestiva: estrago / gago / afago. A palavra ‘estrago’ é um capítulo em si mesmo. O gago fica espremido entre o estrago e o afago. Não espanta que sua voz falhe. Ouve-se na gravação que Noel dá uma entonação toda especial à palavra afago, quase um arrepio, fazendo ainda por cima uma pequena cesura.

Outras séries de sonoridades significativas ampliam o processo. Na série ‘crueldade/da saudade/que maldade’, a repetição gaguejante acentua o ridículo e quase intoxica. Em outra direção surgem sonoridades mais pesadas, quase grosseiras (o estrago está feito): ‘moribundo/vagabundo’até ‘tu vais ficar corcunda’. Tudo isso torna a palavra ‘afago’ a única recordação doce (embora chorosa) de todo o episódio. Leia o texto na íntegra.

junho 6, 2009 at 8:14 pm Deixe um comentário

Surplus

Surplus (2003), é um documentário sueco que coloca em evidência o consumo desenfreado das sociedades contemporâneas e os problemas gerados pelo excesso da produção em massa no mundo. Seja pelo viés do capitalismo esmagador americano ou pelo socialismo decadente de Cuba, o vídeo dispara crítcas ácidas às patologias sociais de um mundo pautado pelo poder (seja econômico ou simbólico). Para sustentar um discurso tão inflamado, o documentário se divide em blocos regados por músicas e cenas belíssimas… Como em um video-clipe que martela os ouvidos e olhos de seus espectadores.

maio 23, 2009 at 10:44 pm Deixe um comentário

Ella Fitzgerald – A primeira-dama do Jazz

Quem escuta a poderosa voz de Ella Fitzgerald não imagina que por trás dela há uma mulher tímida e modesta. A música sempre significou tudo na vida de Ella Jane Fitzgerald, nascida em 25 de abril de 1917, na cidade de Newport News – Virgínia. Sua história, antes da carreira de sucesso, continua uma incógnita paradoxal para muitos pesquisadores e jornalistas do campo musical. Mas ainda assim, o pouco que se sabe é suficiente para descobrirmos uma grande história de superação… na qual uma infância pobre e difícil se desconstruiu através de um talento inigualável.

Era através das palavras na música que a tímida Fitzgerald desaparecia e, diante do público extasiado, emergia uma bela voz com um timbre atemporal.  Em uma das milhares de biografias sobre Ella Fitzgerald, li um trecho interessante que resume, de certo modo, a proporção que tomou a carreira de Ella:

“Dizem que quando os motoristas de táxi de Nova York sabem o seu nome, você alcançou o sucesso. Bom, os motoristas de táxi de Nova York, pelo que me contam, conhecem o nome de Ella Fitzgerald desde o início da década de 40″…”mas não só os motoristas de táxi; os americanos em geral dedicam a Ella o tipo de afeição que os britânicos reservam para a rainha Elizabeth, a Rainha Mãe”. (Stuart Nicholson, 1993).

Para quem conhece e, principalmente, para quem nunca ouviu a primeira-dama do jazz, segue um vídeo dela cantando “Round Mindnight”, composição de Thelonious Monk,  em 1961.

Ler – Ella Fitzgerald: A Biography of the first lady of Jazz

abril 26, 2009 at 2:30 pm 3 comentários


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